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Concurso Literário - 1º lugar - Prosa—2011 |

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1º Lugar Prosa Infantil – Prêmio Fábio de Carvalho Noronha
Maria Eduarda Moreira Marangoni – São João da Boa Vista/SP
Um concurso cheio de pessoas sem importância, mas...
Era uma vez um monte e princesas conhecidas de todos pela beleza e delicadeza. Só que, como todo mundo, já estavam velhas, feias, tortas, com cabelos brancos e sem seus príncipes, pois tinham se divorciado. Elas sempre diziam, quando os outros questionavam: - Mas e o final feliz? Por que vocês se separaram? Era sempre a mesma coisa e, as princesas diziam: - Essa história de final feliz é tudo mentira! Não existe um final feliz!! Não era diferente com os príncipes. Eles pensavam o mesmo e já haviam perdido toda a magia. Então, um dia, Cinderela e a Bela (ex Fera), estavam andando na rua, com vestidos horrorosos, fora de moda, e, uma menina encontrou-as e disse: - Nossa como vocês estão horríveis! Já que viveram em contos de fadas deviam fazer um concurso e a vencedora ganharia o prêmio de ser bonita para sempre. Que tal? As princesas disseram na mesma hora: - Nós não gostamos de concursos, mas eu tô fora de ficar assim! Topamos. Você pode organizar para a gente? Vamos falar com as outras. A menina respondeu: - Tudo bem. Logo aviso vocês. Então Cinderela e Bela foram falar com as outras princesas e todas concordaram, mas a Cinderela, que era uma velha metida, disse: - É claro que este concurso já tem uma vencedora... Eu! Todas responderam juntas: - Tudo bem. Você será uma princesa linda para sempre, mas... Solteira! Agora não tem mais Fada Madrinha para te ajudar! - Muito engraçado, estou morrendo de rir! Já ouviram aquela história que diz “Que ri por último, ri melhor?” Pois então, me aguardem. – Disse Cinderela mais confiante do que nunca. Passada uma semana, chegou o grande dia! Todas as princesas estavam presentes e preocupadas se iriam perceber suas celulites, plásticas e rugas. Então, a princesa Aurora foi a primeira a desfilar para os juízes. Todos deram ZERO! Coitada, tão acabadinha... Aí foi a vez da velha metida Cinderela e, ela recebeu a nota UM! Em seguida entrou Bela e ganhou UM E MEIO! Assim, o concurso seguiu com todas as outras princesas recebendo notas muito baixas. Até que, um dos juízes percebeu que aquilo não levaria a nada e resolveram de comum acordo, levantar e ir embora sem terminar o concurso de princesas feias. Vocês devem estar se perguntando... E as princesas tão famosas? Ora, ficaram horríveis para sempre!
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1º Lugar Prosa Juvenil- Prêmio Fábio de Carvalho Noronha
João Paulo Lopes de Meira Hersegel – Alumínio/SP
Minhocas na cabeça
A perspicácia do Verão foi calorosa. Na distribuição das estações, soube escolher o melhor período, obteve a sorte de trabalhar com a companhia do Sol e ganhou a oportunidade de receber o ano com um sorriso radiante de boas-vindas, bem como a de lhe dizer adeus com um ardente beijo de despedida. Pode, inclusive, se gabar por acolher os três maiores feriados, Natal, Ano Novo e Carnaval. Além de bancar o bonzinho com os jovens por ter abraçado, também, as férias escolares. Às vezes, porém, o que deveria ser descanso acaba se resultando em tédio. Na chácara do avô, nada para fazer, ninguém com quem falar — nem as três filhas da empregada, de idades consecutivas aos doze anos dele, arriscavam conversa. Para se livrar do contrastante frio do desprezo, distanciou-se da casa e adentrou uma trilha abandonada, onde seguiu até encontrar um riacho. A grama tão alta parecia estar de pé. Ele deitou o corpo sobre ela, as mãos se fizeram travesseiro, os olhos admiravam as nuvens que bailavam no cenário azul do céu. Coisa mais chata, mas servia para passar o tempo e se esquecer do desejo alucinado de chupar sorvete. A bermuda de poliéster e a camiseta sem mangas deixavam à mostra as pernas e os braços, que já carregavam os primeiros fios da puberdade. Passou quatro horas ali. Percebeu ter encontrado algo mais que um lugar bonito: descobriu o aconchego. Sentia-se relaxado, a brisa morna fazendo-lhe cair no sono. As pálpebras pesavam, mas antes que elas se fechassem, a bexiga tornou-se um incômodo. A sensação de preguiça era muito boa, por isso cruzou as pernas e tentou enganar o organismo. Há coisas, no entanto, as quais não se adianta nem tentar; impedir a vontade da natureza é uma delas. O banheiro mais próximo ficava longe, e o barulho da correnteza não contribuía muito para o autocontrole. Teve de tomar uma atitude tipicamente masculina: infiltrando-se entre arbustos e correndo para trás de uma árvore, fez do musgo mictório. Por fim, olhou para baixo — ficou cara a cara com uma minhoca. Como ela era feia, pobrezinha... e aparentemente estava infeliz; pelo menos não sorria, se é que tinha algum dente para isso. O sol a deixava estorricada e sem forças, um caule de margarida exposto ao calor, completamente murcho. O garoto quis fazer alguma coisa com ela, embora não tivesse a mínima ideia do que pudesse ser feito. A minhoca era indiferente ao olhar do rapazinho. O som de passos fez o garoto virar-se abruptamente; a minhoca apenas transpareceu um leve movimento. As filhas da empregada apareceram para tomar um banho de riacho. O verde circundava o lugar, e o garoto, espiando entre os vegetais, sentiu seu mundo colorir. Uma morena, uma loura e uma ruiva: sorvete de napolitano em forma humana. Os olhos brilhantes baixaram e viram que a minhoca havia encontrado sombra e se reidratava aos poucos. Ele baixou a mão direita e a aproximou dela, numa tentativa de brincar — uma brincadeira da qual não sabia certamente quem sairia vencedor. Tomou entre os dedos algo mole e esquisito de segurar. Voltou a observar entre as folhagens e se deparou com uma imagem nunca vista pessoalmente por ele antes: as camisetas não poderiam ser molhadas, por isso as garotas as tiravam. O garoto colocava um sorriso malandro na face. A minhoca se contorceu, espreguiçando-se, como se a sombra, a temperatura ou algum outro fator do momento fosse responsável por que ela se esticasse. À beira do riacho, a loura e a morena usavam os delicados dedos para desfazer o nó dos cordões de seus shorts, enquanto a ruiva descia calmamente a saia. O garoto continuava a espreita e se divertia com a cena. Começou a balançar os dedos, uma massagem malfeita na minhoca. Ela, mesmo assim, demonstrava gostar e o recompensava fazendo pequenas cócegas. Não sabia se ria ou se se segurava, se olhava para a isca de peixe ou para as três sereias. Sem perceber, a situação dos dois novos amigos se inverteu: a minhoca estava rígida, procurando algo para olhar, e ele se contorcia, sentindo uma estranha alegria interior nunca sentida antes. Reposicionou os olhos a tempo de assistir ao desfecho da cena. As moças analisaram o ambiente e, sem notar a presença do neto do patrão, se desfizeram das roupas de baixo e pularam na água cristalina, refrescando seus corpos. Uma inesperada e repentina chuva de fim de tarde escorreu de uma nuvem passageira. As garotas saíram espontaneamente do riacho e, vestindo-se rapidamente, voltaram para casa. O garoto permaneceu estático — as gotas do suor imprevisto que vazava da testa se misturaram com as gotas do suor vindo do céu. A minhoca, agora molhada, se encolheu na palma da mão. A mão estava pegajosa — celoma de anelídeo, talvez — e mostrava o poder que ela teria dali em diante. Perspicaz foi o Verão. Merecedor de uma menção honrosa por representar uma época que é tida, por muitos, como a da descoberta da adolescência.
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1º Lugar Prosa Adulto- Prêmio Fábio de Carvalho Noronha
Tatiana Alves Soares Caldas – Rio de Janeiro/RJ
Na cabeça
Seu Leal era funcionário público, atividade que exercia com pompa, mas sem qualquer entusiasmo. A única coisa de que gostava – e isso, sim, lhe conferia importância – era o carimbo que depositava em alguns documentos oficiais. Como num ritual, pressionava a almofada de um lado, do outro, e pronto! Carimbava, com solene agressividade, os papéis, de resto já rendidos ao seu crivo. Entretanto, até esse prazer lhe fora tirado, com o advento do carimbo automático. Paralela à sua atividade funcional, havia a paixão por jogos de azar. Apenas dos cavalos escapara, para alívio da esposa. Já as loterias, essas, eram visitadas quase que diariamente. Nada escapava de sua fezinha: Mega Sena, Loto, Loto Mania, raspadinhas de todos os tipos. Sua especialidade, contudo, era mesmo o Jogo do Bicho: conhecia todos os animais, em ordem, com as respectivas dezenas e grupos, além do simbolismo contido em cada um. O desencanto com o trabalho era inversamente proporcional ao seu empenho como representante de sua seção junto aos bicheiros locais. Cedinho, perambulava pelas salas do setor, orientando quem eventualmente tivesse algum palpite. – Sonhou com a sogra? Joga na cobra! 33 na cabeça, tenho certeza! – Ih, o seu João veio todo embecado hoje. Vai dar pavão. Quando a pessoa não entendia bem os trâmites do processo, ele explicava, pacientemente: – Se o sonho foi com bicho e não com um número, joga no grupo. Para garantir, cerca pelos sete lados. Aí, você ganha mesmo se não der na cabeça. O carro estava de ré? Joga o número da placa invertido. Outro ponto que ele fazia questão de frisar: o palpite só valia para o dono. E nisso ele era de uma ética ímpar. Jamais utilizava um palpite que não fosse seu. Com o passar do tempo e com a automação das funções, seu Leal foi ficando mais e mais obsoleto. Sentia-se uma máquina de escrever em meio a computadores de última geração. Apenas uma coisa ninguém lhe tirava: o know-how do Bicho. Passou a jogar pra valer. Duas vezes por dia. Buscava pistas e sinais nas situações mais corriqueiras, como o número da comanda do restaurante ou o preço do cafezinho. Precisava ganhar um prêmio milionário. Não aguentava mais o trabalho. O chefe tolerava-o. Afinal, era um senhor, o servidor mais antigo do setor. Era só uma questão de tempo até ele se aposentar. Leal conferia mais uma vez o jogo. Nada. Ainda não fora dessa vez. A mulher via o companheiro definhar de tristeza. – Eu vou ganhar. Foi por pouco... – Desiste disso, homem! Você tem um emprego seguro, onde ninguém te aporrinha. Se você somar tudo o que já gastou em jogo... – Quem não joga não ganha! E eu vou ganhar! Os dias se passavam, e Leal auxiliou vários colegas, vendo-os ganharem prêmios. Ele mesmo conseguiu faturar um dinheirinho em alguns bolões, mas nada que lhe permitisse jogar tudo para o alto. Faltavam mais ou menos seis meses para a aposentadoria quando ele morreu. Um mal súbito. Coroas de flores eram enviadas pelos colegas. A viúva, inconsolável, voltava para casa quando viu um dos bicheiros, aos gritos, entrando no cemitério com o número da sepultura num pedaço de papel amassado. Dera na cabeça.
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1º Lugar Prosa Maiores de 60 anos- Prêmio Especial Otávio Pereira Leite
Nilton Tadeu da Silva Silveira – Porto Alegre/RS REFÚGIO DOS ANJOS
Sem condições de visibilidade material, encontro-me neste espaço obscuro, a relembrar o passado. Tudo aconteceu tão de repente. Porém, como num filme, posso descortinar, com os olhos do intelecto, alguns fatos ocorridos durante a minha existência. Penso que tudo começou antes mesmo do meu aparecimento, nos idos do século XVIII, quando as cidades ainda não possuíam iluminação pública; o que havia eram os chamados oratórios rústicos, ou murais, nos quais se acendiam velas e/ou candeeiros de azeite. Mais tarde, surgiram os lampiões de gás, que eram colocados em algumas esquinas. Não obstante, quem queria andar à noite usava archotes ou incumbia escravos dessa tarefa. Fui um dos primeiros postes de luz elétrica, e minha trajetória como tal ─ isso por volta de 1880 ─, começou num Dia de Finados, quando assentei-me como fonte de iluminação no pórtico do cemitério que estava situado no sopé do vulcão Destin. No buraco em que fiquei a água transbordava. Não fossem os pedregulhos ─ e até dois crânios sem destino ─, ajeitados em torno de minha base, não sei se eu conseguiria me manter no prumo, visto que a fúria do vento era um tanto ameaçadora. Mesmo assim, como o cemitério estava sendo inaugurado, não faltaram fanfarra e discursos. Nas falas oficiais ninguém referiu-se a mim. Entretanto, muitos dos curiosos presentes eram pródigos na exaltação dos meus dotes físicos e insistiam: Ele é tão bonito, mas... Eu odiava esse “mas” e essas reticências! E o pior era que, mesmo a completarem os comentários aos cochichos, eu sempre escutava o que eles diziam. Contudo, devo ressaltar que me agradava ficar estático, desempenhando meu importante trabalho de iluminador; ainda mais de um cemitério, esta cidade silenciosa habitada por seres que não disputam espaços, mas que, por conta de quem permanece vivo, de um lado vê-se coroas e ricos mausoléus, enquanto de outro se constata a pobreza manifesta em montes de terra destituídos de flores e cruzes. Cemitérios... refúgios de anjos da luz e anjos das trevas, em que, dentre contrastes gritantes, somente as lágrimas de saudade dos que bebem a dor da morte de seus entes queridos evidenciam a conexão entre monumentos sepulcrais e covas rasas, aonde a última visita de todos é para ficar. Fiquei por bom tempo neste cemitério e, além dos vira-latas ficarem a mijar em mim, e das cenas previsíveis em qualquer cortejo fúnebre, testemunhei fatos inusitados. Entre estes, lembro do enterro de um homem pranteado por três viúvas que só se deram conta do adultério do marido no exato instante do sepultamento. A briga entre elas foi tão feia que uma chegou a cair na cova em que o falecido iria ser enterrado... Tem também a história da mulher cataléptica tida como morta, que sofria de rinite alérgica e, ao colocarem próximo ao seu nariz um buquê de amarilis, ela espirrou... Outro defunto teve de ser recolhido do chão e colocado em outro caixão com um fundo que aguentasse os seus mais de duzentos quilos... Presenciei até a manifestação de um morto que, através de uma mulher que se dizia médium, insistia para que ela própria fosse a mais beneficiada entre os herdeiros. Só que, ao ser inquirido sobre particularidades da família, o pretenso espírito, que afirmava ser o próprio morto, não soube responder e, sem outra saída, alegou que tinha de “subir” imediatamente, pois o chamavam do além... Já outra ocorrência foi muito interessante: a alma da defunta materializou-se diante de todos; a debandada só não foi geral porque no recinto havia estudiosos do assunto, que convencer a todos sobre a existência do ectoplasma, a parte mais externa do citoplasma, que, segundo pesquisadores do fenômeno, flui do corpo de certos médiuns e possibilita a ação dos espíritos no mundo material. Há outra história inesquecível, a de um casal de namorados, que não posso deixar de citar... Antes, porém, devo abrir um parêntese: para que ninguém diga que nego o meu passado, revelo que, antes de me destacar como poste do cemitério, fui lampião de gás. E, posto que tenha sido por um curto período, além de ter conhecido muitos lampianistas, experimentei as emoções e sensações da vida em uma zona de meretrício, onde homens e mulheres, admiradores da boemia, transitavam, alegres, a esbanjar licenciosidade ao som de modinhas, maxixes e chorinhos. Como contrapontos, não faltavam ópio, haxixe, bebedeiras, brigas... Também houve mortes naquele local, e a pior delas foi a de Adelaide, uma mulher que levava vida dupla: de dia, ela era dama da alta sociedade; à noite, porém, colocava barbitúricos no chá do marido e, transformada na mais abjeta rameira, dirigia-se aos lupanares, em busca de satisfação com vários homens ao mesmo tempo. Essa situação durou anos, até que o marido, avisado que a esposa o traía, tramou um modo de flagrá-la. Na noite fatídica, então, ele não tomou o tal chá e, assim que ela saiu, pegou, rapidamente, sua fantasia de arlequim, o maior dos fetiches eróticos de Adelaide, e a seguiu. Não tardou, e estava diante dela, nua, num quarto malcheiroso. Apesar disso, diante da cena que o aviltava, ele aproximou-se, lentamente, e, ao tirar a máscara, com os olhos ejetados e a boca espumando, disse: ─ Que prazer inusitado estar com vossa mercê aqui, minha colombina! Aterrorizada, Adelaide só teve tempo de levar a mão à própria garganta e tombar, estrebuchante, degolada por uma navalha. Mas voltando ao caso do casal de namorados, devo dizer que essa é a história por que tenho a maior admiração. Bem, como disponho de pouco tempo, vou contá-la rapidamente. Aconteceu que, sem saberem das mortes repentinas um do outro, ocorridas em momentos próximos, mas em locais diversos, a moçoila e o mancebo foram velados num único esquife e, em meio a guirlandas de açucenas e ao som da marcha nupcial da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, foram sepultados. Lindo, não? São muitas as histórias, mas, na situação em que estou, não consigo me lembrar com riqueza de detalhes. Ah, tem mais uma, a do vigia que, a um voo rasante de uma coruja sobre ele, pensou tratar-se de um fantasma e tentou escafeder-se, mas acabou caindo numa sepultura aberta, em cujo interior havia restos mortais a serem levados ao crematório. E na queda, como a madeira da u r n a funerária estava apodrecida, ele acabou dando de cara com o crânio do esqueleto, que, por ironia, sorria sem a falta de um dente sequer, sendo que os incisivos eram de ouro. Nos períodos em que não havia enterros e, consequentemente, escassez de lágrimas, eu ficava a divagar. Como agora, por exemplo, que penso na gradual transformação do mundo... Esta é inevitável; usos e costumes se modificam sempre. As tentações e os apelos serão sempre os mesmos, mas tornar-se-ão cada vez mais sofisticados. Do jeito que segue, em futuro muito próximo não haverá discernimento entre o certo e o errado em muitas situações. E, ainda que a falta de valores ideológicos possa ser o parâmetro da pós-modernidade, a dúvida “ser ou não ser” prevalecerá, porque muitos humanos, usufrutuários de inúmeras dádivas que passam por eles despercebidas, seguirão matando, roubando e sofrendo sem saberem os porquês da vida e da morte. Bem, neste momento, embora eu pense estar certo de que vivenciei todas as cenas descritas, já não sei se algumas delas não passaram de alucinações ou meras conjeturas. Ao longe, ouço o dobrar de sinos que comemoram a chegada do século XX, mas jazo fundido sob a lava do Destin, vulcão diante do qual registrei acontecimentos mil, que, depois de séculos adormecido, entrou em erupção e causou a maior devastação nas cercanias. Na verdade, o que sinto sobre mim não é somente o magma, mas muito mais o peso do destino, do meu destino, que desde sempre fui tachado de louco e vivi a eternidade ouvindo: Coitado, é um homem tão bonito!... É uma pena que ele pense ser um poste!... Ora... homem!... Nunca ninguém fez ideia de tudo o que senti durante a minha existência como poste... E nunca farão, pois, como ninguém escapa da morte, todos os que aqui viviam estão comigo, derretidos, neste formidável evento. Não sei o que eles estão sentindo, mas, ainda que seja bastante assustadora, esta situação proporciona-me uma ampla visão de que, paradoxalmente, no mesmo tempo em que os humanos se desintegram, nunca deixam de ser entes integrais; isto me leva a crer que eles são, indubitavelmente, Princípios Inteligentes do Universo: livres na ação, mas suscetíveis à reação. Agora, de modo bom e conveniente, devo tomar novos rumos... E, se é que também aos postes a vida concede o direito de ter seus elementos transformados em outros tantos que virão a ser partes integrantes do processo evolutivo dos mundos, é minha vez de dizer como o espírito manifesto numa das histórias que narrei: com licença, chegou minha hora de partir; algo além me chama... Ainda não estou certo se é o céu ou o inferno, mas, parafraseando Shakespeare, também entre estes há mais mistérios do que sonha a minha vã filosofia.
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